Há muito tempo, em uma terra muito, muito distante, não existiam smartphones (há apenas 20 anos). As pessoas costumavam entrar em uma cafeteria, pedir uma xícara de café, sentar-se à mesa e simplesmente tomar seu café. Imagine só! Uma cafeteria cheia de pessoas que estavam ali apenas para tomar café. Algumas liam livros. Outras conversavam tranquilamente com amigos. Mas muitas simplesmente tomavam seu café e refletiam sobre a vida. O mesmo acontecia nas filas dos supermercados, nas salas de espera dos consultórios médicos, nos bares, nos restaurantes e até mesmo dentro de suas próprias casas.
Quando nos reuníamos com amigos, discutíamos as grandes questões abstratas da vida, sem smartphones, sem o Google ao alcance dos dedos e sem Inteligência Artificial. Os campi universitários estavam repletos de estudantes que se encontravam depois das aulas para conversar sobre a vida. Sonhos, aspirações, o que desejavam ser quando crescessem. Essas conversas, reflexões e divagações eram transformadoras. Aqueles de nós que tiveram a sorte de viver naquela época sabem exatamente do que estou falando.
Descobríamos quem éramos não por meio do Instagram, YouTube ou TikTok, mas através de longas conversas que nos faziam pensar, ao lado dos nossos amigos da universidade. Conversávamos sobre a sociedade, nossos objetivos e o significado da vida. Nós nos rebelávamos contra as expectativas da sociedade, contra a cultura dominante e contra a vida que nossos pais desejavam que tivéssemos. Formávamos nossas próprias opiniões. Nossas próprias ideias sobre o que a vida deveria significar. Aprendíamos a pensar por conta própria.
É claro que, naquela época, as pessoas também encontravam maneiras de se distrair. Televisão, revistas, jornais. Mas as distrações não estavam disponíveis a cada segundo de cada dia. Havia momentos em que simplesmente não tínhamos nada para fazer. E esses momentos, percebêssemos ou não, eram incrivelmente valiosos.
Infelizmente, esse modo de vida se perdeu em grande parte em um oceano de distrações constantes. Ficamos tão acostumados a ter entretenimento ao alcance dos dedos que muitos de nós mal conseguem suportar alguns minutos sem pegar o celular. Consultamos nossos aparelhos nas filas dos supermercados, nos semáforos, nas salas de espera e até durante um jantar com amigos. E, talvez o mais perturbador de tudo, esquecemos como é ficar entediados.
Tédio (substantivo): Estado de cansaço ou insatisfação causado pela falta de interesse, estímulo ou atividade significativa.
Será que a falta de estímulos é realmente algo tão ruim? Precisamos estar ocupados a cada segundo de nossas vidas, exceto quando estamos dormindo? Como sociedade, nos tornamos tão dependentes de estímulos que até mesmo alguns instantes a sós com nossos pensamentos podem nos deixar desconfortáveis. E não consigo deixar de me perguntar o que isso está fazendo com nosso bem-estar mental e emocional. Perdemos a capacidade de sentir tédio.
O tédio é importante?
Eu diria que o tédio não é apenas importante, mas essencial para nossa saúde mental e emocional. Quando somos constantemente estimulados, raramente temos a oportunidade de processar nossas emoções. Quase nunca encontramos tempo para fazer perguntas importantes a nós mesmos, como: “Por que estou aqui?” e “O que devo fazer com esta vida?”.
O que a maioria das pessoas não compreende é que o tédio desperta o desejo de investigar. Ele desperta a curiosidade. Leva-nos a refletir sobre as questões mais fundamentais da existência. E, talvez o mais importante, nos conduz em direção à verdade. Algo que jamais descobriremos simplesmente fazendo pesquisas na internet.
E o que é a verdade, você pergunta?
A verdade é aquilo que permanece quando paramos de pensar e começamos a nos maravilhar diante do desconhecido. É o silêncio que surge depois de perguntas profundas para as quais não sabemos exatamente as respostas.
Onde eu estava antes de nascer? Qual é o tamanho do universo? Por que tenho esses sonhos e desejos? O que me torna único? Quais são os talentos que possuo e que ninguém mais tem? Existe dentro de mim um desejo intenso de realizar algo que nunca foi feito antes? Será que estou aqui para cumprir algum tipo de compromisso espiritual assumido em uma vida anterior?
Esse tipo de questionamento pode ser infinito. Quantos de nós ainda fazemos perguntas como essas? Quando temos a oportunidade de fazê-las?
Perguntas assim frequentemente surgem quando estamos desconfortáveis. Elas emergem de um estado de cansaço ou insatisfação causado pela falta de interesse, estímulo ou atividade significativa. Elas surgem do tédio, não é mesmo?
Mas hoje, ao primeiro sinal de inquietação, pegamos nossos dispositivos e, ao fazer isso, bloqueamos aquilo que o mundo está tentando nos ensinar.
Algo que não pode ser ensinado em salas de aula ou encontrado nos livros. Algo que não pode ser descoberto enquanto percorremos publicações nas redes sociais. Algo que só pode ser encontrado quando ficamos em silêncio e aprendemos a escutar.
Essa é uma das maiores tragédias do mundo moderno.
Ficamos tão absorvidos pela vida das outras pessoas que nos esquecemos de examinar a nossa própria. Sabemos o que todos estão fazendo, para onde estão viajando, o que estão comprando, em que acreditam e até mesmo aquilo em que acham que deveríamos acreditar.
Temos acesso a mais informações do que qualquer outra geração da história da humanidade. E, ainda assim, quantos de nós realmente sabem quem somos? O que verdadeiramente desejamos? O que nos faz felizes quando ninguém está olhando?
Essas não são perguntas que podemos responder rolando a tela de um celular.
Elas exigem algo com o qual estamos cada vez menos confortáveis.
Silêncio.
Solidão.
Longos períodos de tempo sem absolutamente nada para fazer.
Elas exigem que permaneçamos na companhia dos nossos próprios pensamentos, mesmo quando esses pensamentos nos deixam desconfortáveis.
Especialmente quando nos deixam desconfortáveis.
Porque, por trás de todo esse ruído, estão as perguntas que temos evitado. Perguntas sobre quem somos, por que estamos aqui e o que desejamos fazer com essa experiência breve e extraordinária que é estar vivo.
Às vezes me pergunto quantas grandes ideias foram perdidas por causa de um smartphone.
Quantos livros nunca foram escritos?
Quantas aventuras nunca foram vividas?
Quantos sonhos nunca foram descobertos porque alguém pegou o celular justamente no instante em que sua imaginação estava prestes a revelar alguma verdade escondida?
Algo extraordinário.
O tédio é algo que precisamos aprender a acolher.
Um convite para explorar o mundo vasto e misterioso que existe dentro de cada um de nós. Um mundo que não pode ser acessado por meio de uma tela, por mais “inteligente” que a tecnologia se torne.
Portanto, da próxima vez que você se encontrar sentado sozinho em uma cafeteria, sem nada para fazer, experimente fazer exatamente isso.
Nada.
Quem sabe o que você poderá descobrir?
David Matos
Traduzido do original de Scott Stillman

Excelente.
Atuando como professor, farei, com os aluns, um momento de reflexao sobre o tema abordado, baseado no neste texto.