A barreira de entrada para construir software desmoronou. Mas a barreira para construir algo que realmente importa não se moveu um milímetro.
O lançamento do Claude Code e do Claude Opus 4.5 jogou lenha na fogueira do hype. Ferramentas de LLM já existiam, mas agora elas atingiram um nível que forçou todo mundo a prestar atenção. Só que tem um detalhe: não estamos entrando na “era de ouro do SaaS”. Estamos entrando na era do software pessoal e descartável.
Uma era onde a engenharia deixa de ser sobre escrever linhas de código e passa a ser sobre moldar sistemas. E é exatamente por isso que engenheiros continuam sendo indispensáveis.
A Mudança no Desenvolvimento Moderno
O Claude Code está dominando o meu feed, e por um bom motivo. O curioso não é apenas ver desenvolvedores adotando a ferramenta, mas ver “builders” que antes dependiam de plataformas low-code (como Lovable ou Replit) migrando para ela.
Não me leve a mal, essas ferramentas ainda são ótimas para entregas rápidas. Mas há um movimento claro de pessoas redescobrindo a beleza de um fluxo de trabalho CLI-first (via linha de comando). Quando a interação volta para o terminal, a camada de abstração fica mais fina. Você não está apenas seguindo o caminho feliz de uma interface mastigada; você está no controle.
O Fim da Barreira de Entrada
O que as pessoas estão construindo? A resposta é: tudo.
Pela primeira vez, os não-desenvolvedores deixaram de ser apenas consumidores para se tornarem arquitetos de suas próprias ferramentas. Antes, se você tivesse um problema específico, passaria horas procurando um SaaS que resolvesse 80% dele. Hoje, o fluxo mudou: as pessoas abrem o terminal ou uma interface de voz e simplesmente descrevem o que precisam.
Estamos vendo a explosão do “software pessoal”:
- Um rastreador de assinaturas ajustado exatamente ao seu estilo de orçamento.
- Uma extensão de Chrome que resolve um problema de nicho de entrada de dados.
- Um app de fitness com a interface do jeito que o usuário gosta.
O software está deixando de ser uma commodity que você compra para se tornar uma utilidade pessoal que você gera.
Do SaaS Para o “Bloco de Notas”
Por anos, a indústria foi obcecada em criar “plataformas” e “ecossistemas”. Agora, a maré está virando para algo mais efêmero. Estamos saindo do modelo SaaS para o modelo “scratchpad” (bloco de notas).
Muitos desses novos softwares não foram feitos para durar. Eles são construídos para resolver um problema específico uma única vez e depois serem descartados. É o software como utilidade descartável, focado no “agora” em vez do “depois”.
O que torna isso viável é uma filosofia técnica específica: interfaces CLI, dados locais e zero onboarding. Se leva cinco minutos para gerar uma solução customizada para uma tarefa pontual, você não precisa que ela dure para sempre.
A diferença para o SaaS tradicional é gritante. O SaaS é feito para otimizar retenção e lock-in. Ferramentas sob medida otimizam o imediatismo e o controle. Elas não ligam para o seu LTV (Lifetime Value); elas só ligam para a tarefa em mãos.
Código é Barato. Software ainda é Caro.
Aqui está a realidade da era “AI-native”: gerar código ficou barato, mas construir software continua incrivelmente caro.
Os LLMs mataram o custo de gerar linhas de código, mas não tocaram no custo de entender um problema. Estamos inundados de “apps feitos em um fim de semana”, mas a maioria é apenas uma casca fina em cima de operações CRUD básicas e APIs de terceiros. Eles ficam lindos num vídeo de demonstração no Twitter/X, mas quebram no primeiro contato com o mundo real.
O custo real do software não é a escrita inicial; é a manutenção, os casos específicos (edge cases), a dívida de UX e a complexidade da propriedade dos dados. Essas soluções “rápidas” são frágeis:
- O rastreador de gastos quebra quando o banco muda o formato do CSV.
- A extensão do Chrome morre quando o site alvo muda o HTML (DOM).
- O app de fitness vira um peso de papel sem um sistema robusto de sincronização offline.
O Valor do Engenheiro no Século XXI
Não estamos presenciando o fim da profissão de engenheiro de software, mas o início de uma nova era. O valor do engenheiro está migrando do “como” (sintaxe) para o “o quê” e o “porquê” (sistemas).
A engenharia real reside na abstração e na arquitetura. É saber como estruturar um sistema para que ele dure, entender por que uma estratégia de rate-limiting é necessária e saber exatamente onde não salvar suas variáveis de ambiente. A IA esconde a complexidade; o trabalho do engenheiro é gerenciá-la.
A Ilusão da Distribuição
Com o fim da barreira de entrada, o barulho aumentou. Meus feeds estão cheios de “empreendedores de IA” ostentando faturamentos altíssimos com apps feitos em uma tarde.
Na maioria das vezes, isso é marketing, não inovação técnica. Esses indivíduos vencem porque dominam a arte de capturar atenção em um cenário saturado. A IA removeu a alavancagem da engenharia como diferencial competitivo. Ter bom gosto, timing e um entendimento profundo do seu público agora importa mais do que nunca.
Construir o produto é a parte fácil. O difícil continua sendo o mesmo de sempre: fazer as pessoas se importarem.
O veredito: Quem ganha com isso?
- Especialistas de domínio: Que agora resolvem problemas repetitivos sem depender da TI.
- Times internos: Criando ferramentas descartáveis e scripts rápidos.
- Engenheiros experientes: Que usam ferramentas como Cursor e Claude Code para eliminar o boilerplate e focar na lógica de alto nível.
Mas fica o alerta: LLMs não são perfeitos. Mesmo que o código compile de primeira, você precisa revisá-lo como se fosse um Pull Request de um estagiário. Você não pode simplesmente confiar.
Conclusão
Líderes não-técnicos que acham que podem demitir seus times de desenvolvimento e substituir tudo por prompts estão cometendo um erro estratégico fatal. A IA é péssima em arquitetar sistemas escaláveis e mantíveis.
A barreira de entrada sumiu, mas o julgamento, o gosto e a responsabilidade continuam sendo o seu trabalho.
Inspirado no post: Code Is Cheap Now. Software Isn’t.
David Matos
