Refletindo com algum ceticismo, tento compreender a suposta “grande transformação da IA” que, segundo a narrativa dominante, teria começado com o lançamento do ChatGPT há mais de três anos. O mundo realmente mudou de forma tão profunda assim? O discurso oficial diz que sim, mas a realidade parece constantemente acionar o freio de mão.
Há quem atribua as centenas de milhares de demissões no setor de tecnologia à eficiência algorítmica. Mas e se isso for apenas uma explicação conveniente? Durante a pandemia, contratou-se como se capital fosse inesgotável. Passado o período de euforia, muitas empresas perceberam que erraram na dose. Atribuir esse ajuste à IA soa mais elegante do que reconhecer falhas de gestão diante de investidores cada vez mais cautelosos.
O tão propagado “boom de produtividade” também vem carregado de promessas e escasso em evidências sólidas. Existem ganhos individuais, sem dúvida. Automatizar tarefas pontuais funciona. Mas nada disso, até agora, deslocou de maneira consistente o ponteiro no nível organizacional. Não se vê uma onda clara de ROI (Retorno Sobre Investimento) incontestável, nem saltos macroeconômicos relevantes, nem uma transformação sistêmica que vá além da cadeia previsível de chips, datacenters e startups vendendo versões requentadas de IA para executivos ansiosos.
Enquanto isso, o ambiente digital se enche de conteúdo sintético de baixa qualidade. Um oceano de textos, imagens e relatórios que raramente servem a algum propósito real. Já se pode falar em um fenômeno de “workslop”: funcionários respondendo memorandos gerados por IA, enviados por gestores que também recorreram à IA, em um ciclo no qual ninguém lê nada de fato. Um teatro corporativo onde a encenação substitui o pensamento. A isso se tem chamado de futuro do trabalho. Prefiro chamar de dissolução silenciosa da cultura profissional.
Para quem lidera organizações, cresce a sensação de que a história está passando diante dos olhos e de que, se não apostar todas as fichas em IA imediatamente, o trem parte e não volta. As consultorias reforçam o coro, prometendo que empresas “AI first” irão dizimar todas as demais. No entanto, até o momento, há pouca evidência concreta e marketing em excesso.
Se o mantra é “use IA em tudo”, mas ninguém esclarece o quê, como ou por quê, o que exatamente está sendo avaliado? Competência real ou simples adesão ao hype do momento?
Não parece haver uma solução mágica para todo esse ruído. Mas tenho a convicção de que precisamos falar sobre o que de fato está acontecendo, e não apenas sobre o que os slides de PowerPoint afirmam que está acontecendo. Precisamos separar transformação de hype, técnica de fé. Navegar o futuro sem questionar nada é, talvez, a forma mais rápida de entregar o volante a quem menos se importa com as consequências.
David Matos
*Inspirado no post de Cézar Taurion.
