Cientista de Dados – O Contador de Histórias

Cientista de Dados – O Contador de Histórias

Com a massiva quantidade de dados aumentando a cada dia, um grande desafio vem surgindo para aqueles responsáveis por analisar, sumarizar e apresentar os dados: fazer com que a informação gerada, possa ser facilmente compreendida. Recentemente escrevi o artigo sobre a arte da ciência de dados (pode ser acessado aqui), para refletir um pouco sobre as tarefas envolvidas na ciência de dados. E uma das tarefas mais importantes do trabalho do Cientista de Dados, é ser capaz de transmitir tudo aquilo que os dados querem dizer. E às vezes os dados querem dizer coisas diferentes, para públicos diferentes. Pode parecer fácil, a princípio. Hoje temos à nossa disposição os mais variados recursos para apresentação e exatamente aí que está o desafio. Nunca foi tão fácil gerar tabelas e gráficos, com diferentes estruturas, formatos, tamanhos, cores e fontes. Os gráficos estão deixando de ser gráficos e se tornando infográficos. Ter um volume cada vez maior de dados à nossa disposição, não torna mais fácil a apresentação da informação gerada. Pelo contrário, torna a tarefa mais complicada. Quase uma arte.

Desde cedo e ao longo da vida acadêmica, aprendemos sobre números e texto. Na prática, o ser humano pratica análise de dados, desde os primeiros anos de vida. Mas uma habilidade cada vez mais fundamental no universo de Data Science (e me arrisco dizer, em qualquer profissão), é a habilidade de contar histórias a partir de dados. A tecnologia está permitindo analisar cada vez mais dados e cada vez mais rápido. E ser capaz de visualizar os dados e contar a história que eles querem dizer, é uma habilidade cada vez mais valorizada. Visualizar os dados e contar a história, é a chave que pode levar a decisões cada vez mais precisas.

Tenho visto profissionais de ciência de dados confiarem apenas na tecnologia para explicar o que os dados querem dizer. Eu mesmo já cometi este erro ao longo da minha carreira. Hoje, qualquer um pode colocar alguns dados em uma planilha Excel, criar um gráfico e apresentar uma informação. Para muitos, o processo de visualização de dados termina aqui. Diversas ferramentas do mercado criam dashboards magníficos, com alguns poucos cliques. Mas os dados possuem uma história e as ferramentas tecnológicas não sabem como contar a história, pelo menos ainda. Exatamente aí que o Cientista de Dados precisa ser um contador de histórias. Precisa ser mais que um analista, precisa ser um comunicador, capaz de dar vida a história e contextualiza-la no mundo real. Sem a habilidade de contar a história dos dados, estaremos apenas mostrando os dados.

Uma visualização efetiva de dados, pode ser a diferença entre sucesso e falha nas decisões de negócio. Particularmente, eu acredito que em breve, a capacidade de comunicar e contar as histórias dos dados, será uma das características mais valorizadas e buscadas pelas empresas. Os profissionais de dados possuem habilidades com números, programação e estatística, mas poucos possuem habilidades efetivas de comunicação.

É incrível poder usar a ciência de dados, na tomada de decisões. Mas ao longo do tempo percebemos, que comunicar corretamente o que os dados querem dizer, é um fator de sucesso que faz a diferença. Por isso, técnicas de design começam a ser incorporadas ao mundo de Data Science, ou seja, pensar o design do produto final (a história), de forma que a comunicação seja a mais efetiva possível. Ao pensar na história dos dados que queremos contar como um produto, temos condição de pensar o processo de forma reversa, ou seja, pensamos primeiro no usuário final, no consumidor daquela informação. Como o usuário final vai utilizar a informação contida nos dados? Qual a melhor forma de mostrar isso a ele? Qual a formação, experiência e conhecimento prévio daquele grupo de usuários? São tomadores de decisão ou formadores de opinião? É um grupo homogêneo ou heterógeno? O processo de comunicação dos dados é realizado levando em consideração como o usuário que ouvirá a história, irá intepretá-la. Isso não significa falar com o que a pessoa quer ouvir, mas sim mostrar o que os dados querem dizer, de forma que a compreensão seja clara e conectada com a realidade do público alvo. Para as pessoas que não têm muita paciência com analytics, contar uma história pode ter grande influência na forma como se apresenta a informação certa no formato certo. Uma declaração como “52.000 pessoas foram assassinadas no Brasil em 2014 e em 2015 esse número deve aumentar em 2.5%” pode captar muito mais a atenção de alguém ao invés de apresentar o mesmo comunicado através de gráficos que mostrem as tendências de crimes ao longo do anos, devido a problemas sócio-econômicos.

Um contador de histórias de dados é um perito que analisa os dados disponíveis na forma de gráficos, diagramas ou qualquer outro tipo de representação visual, processa as informações a partir dos dados analisados para compreender o que isso significa para um determinado setor, organização ou marca e, em seguida, fornece insights sobre a forma de uma história. Um contador de histórias de dados descobre o ponto de vista mais convincente para orientar seus usuários a tomar uma decisão lógica, que é suportada com provas e não apenas com opinião de especialistas. Contar histórias com dados não se limita a compreensão de vários conceitos estatísticos avançados, mas também requer a compreensão sobre o comportamento humano.

O Cientista de Dados deve ser um contador de histórias e deve ser capaz de contar a mesma história de maneiras diferentes. O profissional que for capaz de unir as habilidades técnicas necessária para análise de dados, com a capacidade de contar histórias, será o verdadeiro unicórnio, aquele profissional único.

David Matos

5 comments

  1. Lendo o artigo me veio a mente o personagem Michael Burry (Christian Bale) no filme “A Grande Aposta”, estou certo ou viajei um pouco?
    Mais uma vez parabéns pelo texto.

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